Sobre escolhas de carreira
Um relato sobre como a trajetória profissional pode se transformar ao longo do tempo, sobre descobrir possibilidades, repensar caminhos e permitir-se mudar, seguindo a vontade de criar algo que faça sentido. Uma reflexão sobre construção de carreira sem pressa, sem fórmulas prontas e com espaço para seguir explorando.
Quando pequeno, eu ficava constantemente imerso em um mundinho só meu. Ficava imaginando e projetando mentalmente engenhocas, robôs e inovações que iriam impactar o mundo. Lia livros, fazia desenhos técnicos (para uma criança eram bem elaborados!) e andava por aí com uma bolsa de carteiro antiga coletando conhecimentos (vulgo plantas, sementes, folhas e pedras) e anotando tudo em um caderninho que ficava sempre escondido com as minhas “anotações secretas”.
Eram bons momentos. Imaginava que disso resultaria um ser explorador, inovador, criativo e pesquisador.
Mas existem aqueles momentos em que a realidade bate.
Venho de uma família simples. Enquanto crescia e estudava, ninguém falava sobre faculdade ou como esse tipo de coisa funcionava. E isso não por mal — era uma cidade pequena, de interior, onde poucos sabiam como esse tipo de coisa funciona. Lembro que, quando contei para minha família que é possível trabalhar sendo pago para elaborar pesquisas em faculdades, eles ficaram incrédulos.
Em resumo, ninguém havia me ensinado sobre as possibilidades de uma carreira acadêmica ou voltada para tecnologia e inovação. Esses não eram futuros conhecidos. E, bom, já que não seria possível levar a vida de pesquisa e estudos — até onde eu sabia —, comecei a trabalhar ainda cedo.
Nesse espírito de inovar e sempre tentar descobrir algo novo, me encontrei na tecnologia e programação. A programação nos dá a habilidade de criar coisas, e isso sempre me fascinou. Por muito tempo achei ter encontrado aquilo que queria para o resto da minha vida, mas hoje sei que isso era apenas uma máscara, não era esse o “criar” que eu estava buscando.
Trabalhar com programação é algo que, após algum tempo — às vezes menor, às vezes maior —, dá uma boa estabilidade financeira, e esse é um fator muito importante para a qualidade de vida das pessoas em geral. Ao chegar em um momento da vida adulta mais estável financeiramente, temos espaço para pensar com clareza, refletir sobre opções e fazer novas descobertas. Tive a especial sorte de, nesse processo, me encontrar trabalhando em uma fundação de pesquisa. Esse foi um fator importante para, aos poucos, deixar de lado a visão de “criar software” e trazer de volta a visão exploradora, criativa e inovadora do meu eu criança.
E foi isso que fiz. Com mais segurança e clareza, fui atrás de algo que eu adorava quando mais novo: física, pesquisa, ciência e inovação. Deixei de ter a programação como objetivo de vida para usá-la como ferramenta para pesquisar e inovar nas mais diferentes áreas da tecnologia e da ciência.
Hoje sei que fiz a escolha certa, e pretendo seguir por esse caminho.
Tenho trabalhado em projetos interessantíssimos, aproveitando todo o conhecimento acumulado em tecnologia para criar ferramentas úteis ao futuro da ciência e da tecnologia. Unir física, computação, tecnologia em geral, e usar isso para criar soluções inovadoras, verdadeiramente úteis à sociedade, tem sido incrível.
Às vezes é mais cedo, às vezes é mais tarde, mas acredito que todos devem seguir explorando e pensando criticamente sobre suas vidas, sem medo de mudar ou tentar algo novo. O resultado disso pode ser algo muito bom. E, se por algum motivo acabar sendo ruim, é só continuar procurando. Em algum momento algo realmente gratificante vai aparecer.
Fico feliz de ter achado o que me faz feliz, mas nada impede que isso mude no futuro. Afinal, a vida é uma constante busca.